quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Em homenagem aos meus amigos Joyce e Alexandre, eu disse Joyce que o casamento um dia aconteceria!! VEJAM O GRANDE DIA









Era quarta-feira a noite. (O dia foi escolhido porque nenhuma enfermeira de qualquer “lar de velhinhos” quis trabalhar na sexta ou sábado a noite). O jardim estava todo iluminado. Havia bancos de madeira e logo na entrada da igreja dois postes iluminando o local.. (Na verdade eram pra ser tochas, mas com a grande quantidade de convidados usando cilindros de oxigênio, inclusive o noivo com insuficiência respiratória, foi necessário evitarmos uma grande explosão)
Na decoração foram usadas inúmeras flores de laranjeira (para disfarçar os cheiros desagradáveis durante a festa), no altar havia duas cadeiras, para que os noivos pudessem se sentar durante a tão esperada cerimônia.
Os convidados, mais esperados, foram chegando lentamente (literalmente). A Cecília em sua cadeira de rodas, empurrada por seu neto Wagner (Loiro, alto, braaaaanco,...), este muito parecido com o Nenen. Falando em Nenen, enquanto a Cecília tentava levantar seus braços para ajeitar seus cabelos (ainda vermelhos), ele batia boca com os churrasqueiros no salão de festas. Afirmava que não era chamado de Gaúcho à toa. Sua experiência com carnes e cerveja era indiscutível.. Cerveja, chopp, whiski, wodka, batidas... tanta coisa todos os convidados esperavam... mas não esperavam pelas proibições médica: remédios fortes e álcool não era a mistura mais apropriada aos “jovens” convidados. Inclusive era necessário apresentar a identidade para retirar qualquer uma dessas bebidas no bar. Quem se saiu bem nisso tudo foram os acompanhantes (na maioria família, que de forma alguma negavam a genética alcoólica).
Do local onde estou observo, novamente, Cecília. Sua saia está meio desajeitada e a fita que fecha sua fralda é da mesma cor de seu cabelo. (Cecília sempre a frente de seu tempo). Depois das constantes crises de riso e do problema de incontinência urinária, seus netos já não a deixava mais sair sem uma boa reserva de fraldas geriátricas.
Nossa,... Marcela e Miguel apareceram para acompanhar os pais. Eles agora eram geriatras de sucesso (a maior parte dos clientes já os conhecia desde criança) e montaram uma sociedade. Então... eles tinham visão de futuro.
Miguel, estava feliz por finalmente ver sua madrinha se casar e segurava o braço de seu pai que mal conseguia ficar em pé. Enquanto isso sua mãe, Nelma, era acompanhado pelo neto Genival (filho caçula de Miguel, o nome foi uma homenagem à terra que tanto visitou quando criança), que recebia constantes gritos da avó. “- Caminha Genival! Deixa de lerdeza. A gente é obrigada a ser testemunha das palhaçadas da Joyce. Desde a nossa juventude, tenho que suportar estes devaneios. Vadia, ela era vadia! Essa cara de santa que ela faz, é pra enganar gente boba. Só seu avô acredita...”
Miguel, ainda a caminho do banco junto ao pai, só olhava e dizia: “- Calma mãe.” Com certeza aquela paciência fora herdado do Fábio. Este sempre disse que jamais faltaria a tal evento, iria nem que fosse sozinho (eu só queria ver como!!). Não foi necessário ameaçar muito, Miguel se prontificou.... Todos sabiam que era ele, era inconfundível aquela camiseta preta com a foto da Betty Boop (homenagem a Joyce) de vestido longo, algumas flores, deitada sobre uma maca, tomando um remédio na veia (braço direito) e sem maquiagem. Era a própria Dercy Gonçalves em forma de desenho. Havia ainda uma frase nas costas dizendo “_Eu a conheci!!” (não sei se ele falava da Betty, da Joyce ou da própria Dercy).
Fabinho, Leandrinho (já não sabemos quem é quem)... Pelo que percebi o Fabinho é o da cadeira de rodas (acho que ele já é o próprio Oxalufã, em versão maior, bem maior). Como estão na mesma clínica foram acompanhados pela mesma enfermeira. Ela os ajuda com o cilindro de oxigênio, que bonito eles dividem o mesmo.
Leandrão e Amanda (acompanhados pelos netos altos, bem altos), Moema (diretamente da Europa, onde coordena uma pesquisa), Pelma (irritando ainda a Moema), Lorena, Diego, Ana Terra, Darlene, Dênis (de boa toda vida), Lafaiette e Lorena (tanto tempo e ainda discutem pelos mesmos motivos), Yordana (com cilindro duplo de oxigênio), Renata (super feliz), Nina (eu sabia que ela e a Joyce ainda se dariam bem) e outros tantos publicitários, historiadores, freqüentadores de bares gls, pais de santos, filhos de santo,...
Os transeuntes e moradores das chácaras próximas pensavam inicialmente que ou era um congresso de Enfermagem (onde levavam os pacientes que mais lhes dava trabalho) ou um novo terreiro de Umbanda e Candomblé (isso porque quem não estava de branco, se encontrava de preto ou vermelho).
Rampas foram colocadas para facilitar a locomoção dos convidados (a maioria estava de bengala, andadores, segurando os braços das enfermeiras ou parente mais próximo, as pernas também não levantavam o bastante para subir 10 cm se fosse necessário)

O Grande Momento

Joyce enquanto terminava de se arrumar, já gritava para seu “amigo”: “-Eu sabia que ele ia cumprir o prometido. Esperei por pouco tempo, mas se necessário fosse eu esperaria mais (pensei que talvez fosse interessante um casamento com múmias entre os convidado, e até quem sabe no altar)”. Oh minha gente, o que são 45 anos esperando o homem da sua vida. Ele que tanto me respeitou. Me manteve sempre pura.” Isso tudo ela falava sozinha. Bem que sozinha era pra gente que olhava, ela dizia que tinha um novo amigo que conversava com ela, a respeitava, não se irritava por ela andar nua pelo asilo e que não palpitava em suas decisões. Só ouvia...”
O ano era 2049. Tanto tempo havia se passado desde o encontro do nosso casal 20, tanta tecnologia. A maioria dos convidados já tinha no peito coração artificial e agora uma boa parte esperava o pulmão artificial..
Alexandre, o noivo, já não podia escapar. Não tinha mais argumentos, não tinha mais cursos doutorados ou pós doutorado para fazer. Não conseguia mais ler ou escrever direito devido os problemas na visão, não respirava como antes (estava na fila para colocar o Pulmão artificial acima citado) por isso sempre tinha ao lado um cilindro de oxigênio, quase não ficava em pé, e não podia nem mesmo. E ele sempre achando que teria 50 anos para sempre.
Mesmo depois das incontáveis indiretas da Joema e do “Véi Nego” (como agora era chamado), Alexandre sempre disse que queria oferecer o melhor a Joyce (é, agora oferecia a MELHOR idade). A casa foi finalmente construída, fizeram um puxadinho no fundo da casa do Bairro Feliz, os sobrinhos netos de Joyce não confiaram em deixá-la viver longe de seus domínios. E Alexandre aceitou sem argumentar (na verdade eu acredito que ele não tenha ouvido bem a proposta que lhe foi feita devido os problemas auditivos, mas deveria descobrir logo que não moraria na África como o planejado).
E começou a tocar a marcha nupcial (eu até me levantaria se conseguisse), Alexandre estava ofegante no altar (mas não acredito que era só emoção). Ele usava um calçolão e uma bata de richiliê, ao lado do seu cilindro de Oxigênio e só sorria (eu acho que era do decote da Cecília). Joyce entrou, com certa dificuldade. Os enfeites do andador combinavam com o do véu (que lindo!!) Era um vestido super branco, ousado para época. Aquele vestido fora feito 2006 e ninguém sabia. Isso só foi descoberto em 2021 quando o mesmo foi encontrado escondido em uma caixa no fundo falso do guarda-roupa. Junto ao vestido tinha um bilhete (datado) de seu amado, que pelos dizeres já sabia da aquisição.
O Celebrante deste grande evento foi o sobrinho neto mais velho de Joyce, Josemar Neto. Ele estava emocionado pela tia avó. Joyce era só sorriso, estes inconfundivelmente vermelhos e carnudos (este último adquirido pela aplicação de colágeno).
Com o fim da celebração fomos para o salão de festas. Nunca se viu tanta papinha servida em um único lugar, os idosos somente sorriam. Mas o momento mais esperado estava por vir,... Joyce até tentou jogar seu buquê, mas não conseguiu levantar os braços, então com auxílio de sua sobrinha ele foi jogado e por incrível que pareça quem pegou foi um molecote (ainda bem). Ninguém sabia o por que dele ter entrado na disputa (apesar que já não tinha tanta gente disputando), mas o garoto se aproximou de mim, Natália, e me entregou (o que eles achavam, eu precisava de uma prova daquele momento e havia pago bem o moleque). Eu estava ali, observando, me lembrando do passado (e põe passado nisso), tomando às escondidas minha cerveja e fumando meu charuto (eu juro que não é meu, eu fumo pro meu exu), sei que digo isso a quase 30 anos, para eu não teria porque mentir.
Ali tinha acabado de fechar um ciclo, todos já tinham a sensação de dever cumprido (a partir daquele momento podiam morrer em paz...). Exceto a Joyce pensava assim , porque o que ela mais esperava aconteceria dali a algumas horas, era finalmente sua lua de mel, entre quatro paredes onde só o amor seria testemunha.

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